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(S)em Sentido

Nem tudo o que parece é, fica para ver...

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Nem tudo o que parece é, fica para ver...

21.Jul.18

Violência Doméstica: O amor (não) é justificação para tudo?

Claudia de Almeida

Violência

Fonte: http://www.udireito.com/2017/universidade-de-coimbra-recebe-seminario-sobre-a-violencia-no-namoro/

 

A morte do Miguel na quarta-feira fez-me refletir sobre os últimos anos da minha vida, sobre o inferno que vivi e que só apenas os mais próximos de mim conhecem, fez-me perceber que estava na hora de contar a minha história. Escrever este texto, foi uma das decisões mais complicadas que tomei nos últimos meses, ou anos, talvez tenha sido uma decisão mais complicada que largar a pessoa que durante quase três anos me fez sentir que a morte seria o melhor para mim, mesmo que isso significasse deixar para trás tudo aquilo que amava e queria para mim.

Como tantas outras histórias, a minha história começou por uma agressão (in)significante: fui agarrada por um pulso e encostada à parede – no momento, em agosto de 2015, pensei que aquele ato teria sido inocente (o famoso “sem querer”) e motivado pelo excesso de stress, tanto que o pedido de desculpa e a promessa de que não mais voltaria a suceder o mesmo, me deixaram com a sensação de que aquele era um ato isolado que não mais aconteceria. Mas aconteceu, e aconteceu mais algumas vezes, quase sempre do mesmo modo: agarrada pelos braços, arrastada: dentro de casa, na rua, em todo o lado, não importava o local, quem estava ou não presente, nada importava na verdade.

A justificação plausível para os atos violentos? Nenhuma, em quase três anos, tudo era sem querer, tudo tinha sido fruto do momento, do stress, de qualquer coisa ou ação que eu tivesse tido, bastava que o tema de conversa nos colocasse em oposição e eu dissesse “não me apetece conversar” e virasse costas para não gerar uma discussão que, de imediato era agarrada e arrastada. As nódoas negras eram a prova da violência a que eu estava sujeita, uma prova que eu tentava esconder de tudo e de todas, tal como a minha infelicidade, quando me perguntavam se estava bem, se estava tudo bem, eu dizia que sim, sorria, não por medo, nunca foi o medo das consequências, era vergonha, era a necessidade de proteger a pessoa em causa e sobretudo evitar que as pessoas tivessem pena de mim, porque eu não precisava de pena, precisava de alguém que me ajudasse e me defendesse.

À violência física, ainda que mínima, foi-se sobrepondo ao longo do tempo, a violência verbal: os gritos, os berros, os insultos – tudo “sem querer” sempre. Ouvi coisas horríveis, fui acusada de tudo, fui tratada como se fosse o ser mais desprezável do planeta, pela pessoa em causa e pela família dela, aguentei calada, fingia que não ouvia o meu nome em frases como “é mais uma p*** como a…”; “Para terminar o curso deve ter andado a fazer favores s******aos professores”; “Eu no lugar da minha família pensaria o mesmo de ti…”; entre muitas outras coisas que guardarei comigo para sempre.

Pedi ajuda, uma, duas, três vezes, quis sair daquele inferno muitas vezes, mandei mensagens a pessoas que lhe eram próximas, fiz chamadas, mas nunca fui ouvida, nunca ninguém me quis ouvir, nunca ninguém quis dar importância aos meus gritos de desespero e pedidos de auxílio. Permaneci muda durante quase três anos da minha vida, esperei pela resposta às mensagens, por alguém me atender o telefone, porquê? Inicialmente por amor e por pena, motivos pelos quais não apresentei queixa contra a pessoa em causa; e depois pelas ameaças e pela chantagem de que fui alvo ao longo dos anos em que se perpetuaram as agressões físicas e verbais.

Estou viva, não acabei como o Miguel ou como todos os homens e mulheres que diariamente morrem nas mãos dos seus agressores sem que nada seja feito para salvá-los. Mas se estou viva devo-o à minha coragem de ser capaz de dizer “CHEGA!” antes que fosse encontrada morta num qualquer lugar deste país, temi pela minha vida e pela segurança, mentiria se dissesse que não, mas fiz uma escolha: viver em paz e ser feliz.

Se conhecem um caso de violência doméstica ou violência no namoro, denunciem…não permitam que hajam mais “Miguel” independentemente do sexo, da cor, da idade ou da orientação sexual.

A violência doméstica não é sinónimo de amor…

Descansa em paz Miguel! 

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