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(S)em Sentido

Nem tudo o que parece é, fica para ver...

(S)em Sentido

Nem tudo o que parece é, fica para ver...

07.Set.18

Um retrato nu (im)perfeito

Claudia de Almeida

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 (Junho de 2017, by: AS)

 

 

 

Coimbra, 7 de setembro de 2018

 

Poderia escolher uma outra cidade para escrever este texto, para inaugurar uma nova fase da minha vida, mas Coimbra foi a cidade que deu origem a todos os sonhos, a todas as angústias, aos amores ao estilo de Pedro e Inês, às maiores desilusões e dores emocionais. Poderia escolher uma outra fotografia, com outra posse, com roupa, mas isso tornaria este texto algo sem qualquer sentido. Poderia escolher outro mês para escrever sobre mim, para me “despir” e me mostrar tal e qual como sou: imperfeita, sem filtros, sem máscaras, com as cicatrizes e feridas ainda abertas, mas setembro será para sempre o mês que mais me marcou enquanto pessoa e sobretudo enquanto mulher.

Entrei em Coimbra em setembro de 2012 de mão dada com o “homem” que haveria de transformar-me na mulher que sou hoje: fria, desconfiada, uma mulher por vezes frágil, por vezes dura, uma mulher excessivamente independente acima de tudo. A menina que entrou em Coimbra naquele ano deixou de o ser com o passar dos meses, tive de aprender a sobreviver sozinha mesmo que isso implicasse, tal como hoje, sorrir o dia inteiro e no final do dia deitar-me na cama a chorar, fingi meses a fio que não percebia que o “amor da minha vida” me tratava como se eu fosse um mero objeto descartável. 

Abandonei Coimbra com apenas uma mala na mão, cheia de cicatrizes e feridas ainda em sangue, caminhei quilómetros sem destino, sem rumo, perdida entre os meus pensamentos e as ruas da cidade pela qual me apaixonei e que nunca deixarei de amar por mais anos que passem. Passaram cinco anos e alguns meses desde esse dia, mas as cicatrizes permanecem no meu corpo, permanecerão para sempre na verdade, nomeadamente as da última madrugada de fevereiro do ano de 2013.

Hoje, dia sete de setembro de 2018, cinco anos depois, continuo a ser uma mistura entre a menina inocente que entrou em Coimbra em setembro de 2012 e a mulher que a abandonou há poucos meses, uma mistura mais imperfeita do que nunca: estou mais fria e ao mesmo tempo mais doce, mais calma mas muito mais frontal, penso muito menos mas faço muito mais perguntas, sou inquebrável e um vidro fino ao mesmo tempo que pode partir a qualquer minuto sem motivo. Não sou um monstro, sou apenas uma mulher imperfeita em todos os aspetos.

Exigente comigo e com aqueles que quero na minha vida, uma menina que ama com todas as forças mesmo que isso signifique acabar estendida no chão com uma poça de sangue à sua volta, uma mulher que atrás de um sorriso esconde uma história tudo menos perfeita, alguém que prefere sofrer em silêncio do que preocupar os outros, uma mulher que esconde as fragilidades com uma frontalidade por vezes incompreensível e cortante, alguém com sonhos por cumprir, alguém que não sabe viver devagar. Personalidade complicada? Claro, mas também alguém que sabe reconhecer os erros e pedir desculpa por eles…