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(S)em Sentido

Nem tudo o que parece é, fica para ver...

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06.Out.18

Dura Praxis Sed Praxis: A praxe é sinónimo de humilhação?

Claudia de Almeida

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 Fonte: http://www.por.ulusiada.pt/noticias/artigo.php?news_id=2671

 

A abertura do novo ano letivo no que ao ensino superior diz respeito, significa que o tema das praxes abusivas volte à ordem do dia. Após a morte de 6 estudantes no Meco em dezembro de 2013, a praxe, tornou-se num dos grandes temas que dividem a sociedade portuguesa: para alguns uma tradição que permite a integração dos novos alunos; para outros uma atividade que coloca em causa a dignidade e integridade física e psicológica dos caloiros.

Mas quem tem razão: os defensores da praxe ou os seus opositores? Devo confessar que em quase meia dúzia de anos de academia já estive dos dois lados da questão possivelmente pelo facto de ter conhecido duas realidades distintas: Coimbra e o Porto – e dessas duas experiências terem resultado perceções distintas. Dito isto, posso considerar-me isenta na análise das notícias que têm marcado os últimos dias relativamente às atividades ligadas à praxe, nomeadamente o sucedido em Évora e na Covilhã.

Tanto na situação denunciada pelo Bloco de Esquerda relativamente à praxe na cidade de Évora, como na situação vivenciada pelos caloiros da Universidade da Beira Interior, podem tirar-se duas conclusões: é cada vez mais comum os caloiros não saberem impor limites aos “doutores” que os praxam ou temerem impor tais limites por receio de represálias, o que demonstra que o trabalho de casa não foi bem feito – ninguém é obrigado a ir à praxe, ponto. Por outro lado, fica bem patente que estes praxistas parecem não ter noção de que, a praxe não é algo semelhante ao regime militar do tempo da velha senhora em que “tudo é permitido” – sim, a comparação é exagerada, mas parece-me adequada especialmente no caso da Beira Interior – os caloiros estão na praxe porque querem (ou deveria ser assim) e têm vontade própria que deve ser respeitada.

Se há praxes abusivas meus senhores? Há, claro que há, é caso destas duas situações sobre as quais escrevo no parágrafo que antecede este. Toda a praxe é abusiva? Deveria ser abolida? Não, há atividades de praxe bem divertidas e com um caráter inclusivo, humano e social – é o caso da ação promovida em março do presente ano pela Federação Académica do Porto que juntou os estudantes da Invicta na angariação de bens alimentares e materiais para pessoas carenciadas; ou tão somente a praxe levada a cabo pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto em 2017 que colocou os caloiros a recolher donativos para a Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Há uns dias um amigo e colega escreveu no Facebook “Praxe má - não existe, maus praxistas, claro que sim.”, e é verdade. Não é a praxe que é humilhante, não é praxe que coloca a integridade física e/ou psicológica em causa, são alguns praxistas, pessoas que infelizmente conseguem denegrir a imagem da praxe e sobretudo, sujar o trabalho dos bons praxistas – porque sim, eles existem e eu conheço imensos.

Por último e para não me alongar mais, deixo aos caloiros que possam ler esta publicação os seguintes conselhos:

- Não se declarem anti-praxe sem irem experimentar uma vez;

- Se sentirem a vossa dignidade ou integridade física/psicológica posta em causa digam a quem vos está a praxar, não receiem dizer: “NÃO!”. A praxe é suposto ser uma brincadeira, uma atividade integrativa dos novos alunos, não permitam que a tornem numa humilhação;

- Aproveitem os anos de universidade com responsabilidade e moderação, serão os melhores anos das vossas vidas.